“Catholique pratiquante”: Richard Ankri encontra no cotidiano o riso mais preciso
- Nosso Som

- há 10 horas
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Em Catholique pratiquante, Richard Ankri usa o humor não como escudo, mas como lupa. A canção se constrói a partir da observação minuciosa de uma rotina aparentemente banal: a vida de uma mulher católica praticante, seus filhos, seus hábitos e a presença quase oficial do padre Jean Daniel. Tudo é tratado com leve exagero, mas nunca com desprezo. O riso nasce da familiaridade, não do deboche.
A faixa se insere com clareza na tradição da chanson humoristique francesa, onde a palavra conduz e a música acompanha, criando espaço para que o texto respire e se imponha. Há ecos evidentes do espírito de La vie est un long fleuve tranquille: uma normalidade organizada, limpa e previsível que, ao ser observada de perto, revela pequenas fissuras, contradições e situações tão absurdas quanto reconhecíveis.
O grande mérito de Ankri está no equilíbrio entre crítica e afeto. A personagem central jamais é reduzida a caricatura. Seus gestos, sua fé e sua relação com a família são apresentados como parte de um ecossistema cotidiano rígido, mas humano. O humor surge da repetição, da ordem excessiva, da institucionalização dos costumes — sempre tratados com uma ironia gentil, quase cúmplice.
Musicalmente, Catholique pratiquante evita qualquer excesso que possa desviar a atenção da narrativa. O arranjo funciona como cenário, sustentando a letra sem disputá-la. Essa escolha reforça o caráter quase cinematográfico da canção, que soa como uma pequena crônica musicada, um recorte de vida contado com timing preciso e olhar atento.
Ao transformar o ordinário em matéria artística, Richard Ankri reafirma a força do humor como ferramenta de leitura social. Catholique pratiquante diverte sem superficialidade, provoca identificação sem julgamento e convida à reflexão sem peso. É nesse ponto — entre o riso e o reconhecimento — que a canção encontra sua maior inteligência.






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