Gatos de Apartamento mergulham na psicodelia emocional em “Sem Disfarçar”, segundo single de seu novo álbum
- Nosso Som

- 27 de nov. de 2025
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Com “Sem Disfarçar”, a banda paulistana Gatos de Apartamento entrega uma daquelas faixas que se fixam na memória como um filme secreto, projetado no fundo da mente do ouvinte. O segundo single do aguardado Entre as Canções e as Dores é uma jornada sonora densa, psicodélica e profundamente emocional — construída com uma sensibilidade que flerta com o absurdo, o humor e um certo brilho ácido ao tratar de um tema tão delicado quanto a depressão.
Desde os primeiros compassos, percebe-se que o grupo encontrou um equilíbrio raro: transformar a dor em narrativa estética sem reduzir sua complexidade. “Sem Disfarçar” se move como quem atravessa um corredor cheio de portas entreabertas, cada uma revelando um universo distinto, uma referência que molda a personalidade da banda. Há o poder melódico e levemente nerd do Weezer, guitarras sujas que evocam a tensão controlada dos Pixies e uma ousadia irreverente que remete ao rock brasileiro dos anos 70 — especialmente Mutantes e Raul Seixas, mestres em misturar inquietação e delírio.
A produção de Carlos Freitas e a mixagem refinada de Julio Miotto no Estúdio Aurora trazem à faixa uma textura rica, quase tridimensional. A psicodelia, aqui, não é mero adorno estético: ela é parte da arquitetura emocional da música. Criam-se ambientes que oscilam entre o sonho e o delírio, com ecos de Strawberry Fields Forever e da paleta surreal de O Mágico de Oz, onde o real e o imaginário se misturam em igual intensidade. O resultado é um som que ora acolhe, ora perturba — mas sempre desperta.
Para entender o peso simbólico de “Sem Disfarçar”, é impossível ignorar o passado dos Gatos de Apartamento. A banda nasceu de uma dor concreta: o álbum de estreia, lançado em 2019, foi composto por Fabio Pelissioni em homenagem à sua ex-esposa, transformando luto e memória em música. Desde então, o grupo aprendeu a fazer arte com as próprias cicatrizes, atravessando inclusive o silêncio involuntário da pandemia. O distanciamento físico não paralisou o projeto — ao contrário, gerou novos formatos. Vieram covers caseiros, gravações remotas e lançamentos como “Clouds” e uma versão vibrante de “Eleanor Rigby”, reafirmando a vitalidade criativa da banda.
A retomada se intensificou em 2022, quando o single “Pêndulo” encarou a polarização política do país com maturidade e contundência, rendendo destaque em veículos como 89FM, Kiss FM e no podcast de Sérgio Martins. Na sequência, “Muito Mais” e a delicada “Love Song X” ampliaram o repertório emocional do grupo, reforçando a versatilidade de um projeto que não teme transitar entre delicadeza e turbulência.
Agora, com shows renovados e uma turnê ganhando força, “Sem Disfarçar” surge não apenas como mais um lançamento, mas como uma síntese da alma da banda. O single apresenta um rock alternativo brasileiro que abraça a melancolia sem sucumbir a ela, que aceita a dor como matéria bruta e a transforma em linguagem, em cor, em catarse.
A canção não tenta esconder nada — nem a tristeza, nem o desconforto, nem a vontade de traduzir a própria vulnerabilidade em arte. E é justamente essa honestidade que torna “Sem Disfarçar” tão marcante: uma faixa que toca ao assumir, sem rodeios, que o que sentimos também pode ser o que nos move.
Se este é apenas o segundo passo rumo ao novo disco, Entre as Canções e as Dores promete ser um dos trabalhos mais intensos, criativos e emocionalmente sofisticados da carreira dos Gatos de Apartamento. Depois de “Sem Disfarçar”, fica claro: eles não estão apenas fazendo música — estão contando histórias que continuam ecoando muito depois do último acorde.






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